Saúde da população negra na infância: por que falar sobre isso no Dia da Consciência Negra?

Algumas condições são mais frequentes na população negra e podem começar cedo, mas quando a informação chega, o cuidado chega junto.

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Letícia Chagas

11/20/20253 min read

O Dia da Consciência Negra é um convite para refletirmos sobre muitos aspectos da vida da população negra no Brasil, e a saúde é um deles. Quando falamos de crianças e adolescentes negros, algumas condições aparecem com maior frequência, seja por fatores genéticos, seja pelos impactos das desigualdades sociais no acesso aos cuidados.

Discutir isso não significa reforçar estigmas, mas sim reconhecer vulnerabilidades que podem ser prevenidas ou tratadas de forma mais efetiva quando identificadas cedo.

Anemia Falciforme: uma condição genética que começa cedo

A anemia falciforme é uma doença hereditária mais comum em pessoas de ancestralidade africana. Em muitos casos, os sintomas surgem ainda nos primeiros anos de vida: episódios de dor intensa, maior risco de infecções graves e possibilidade de eventos neurológicos como AVC infantil.

A triagem realizada no teste do pezinho é fundamental porque permite iniciar acompanhamento especializado rapidamente. Vacinação adequada, prevenção de infecções e consultas regulares são medidas simples que reduzem complicações e aumentam a expectativa e qualidade de vida dessas crianças.

Diabetes tipo 2 em adolescentes negros

Embora seja tradicionalmente associada à vida adulta, a diabetes tipo 2 tem atingido cada vez mais adolescentes. Jovens negros fazem parte dos grupos mais afetados, fenômeno influenciado por questões metabólicas, ambiente familiar, alimentação, oferta de atividades físicas e acesso a profissionais de saúde.

O diagnóstico precoce depende de consultas regulares, avaliação do crescimento, orientação nutricional e incentivo à prática de atividades físicas de forma inclusiva. Quanto antes essa abordagem começa, melhores são os resultados.

Pressão alta: um cuidado que também começa na infância

Estudos mostram que crianças negras podem apresentar maior probabilidade de desenvolver hipertensão primária, mesmo sem causas aparentes. Como ela é silenciosa, muitas famílias só descobrem quando a condição já evoluiu.

Por isso, verificar a pressão arterial em consultas pediátricas é essencial. Um gesto simples evita problemas futuros e permite intervenções precoces.

Vitamina D e saúde óssea: por que isso importa?

A melanina presente na pele mais escura reduz a produção de vitamina D sob exposição solar equivalente. Isso pode aumentar a chance de deficiência vitamínica e comprometer a saúde óssea durante o crescimento.

A avaliação deve ser individualizada: considerar hábitos, rotina de sol, alimentação e condições clínicas. Quando necessário, a suplementação orientada ajuda a evitar fragilidade óssea e outros problemas associados.

O papel das desigualdades no cuidado

Grande parte das diferenças observadas em saúde não nasce do corpo, mas do contexto: dificuldade para realizar exames, longas filas para atendimentos, falta de profissionais capacitados e informações pouco acessíveis. Isso afeta diretamente o tempo de diagnóstico e a qualidade do acompanhamento.

Reconhecer essa realidade é indispensável para propor mudanças e apoiar as famílias que enfrentam essas barreiras diariamente.

Como avançar no cuidado de crianças e adolescentes negros?

Algumas atitudes práticas podem fortalecer essa jornada:

  • Realização e avaliação do resultado do teste do pezinho

  • Observar peso, altura e pressão arterial em consultas

  • Incentivar brincadeiras ativas e movimento diário

  • Priorizar alimentação variada e com acesso possível

  • Conversar com profissionais de saúde quando surgirem dúvidas

  • Solicitar avaliação de vitamina D quando houver indicação clínica

Pequenos passos, somados, ampliam as oportunidades de saúde e bem-estar.

Falar sobre saúde da população negra na infância é reconhecer que todos os cuidados deveriam estar igualmente disponíveis, mas nem sempre estão. Tornar essa informação acessível, divulgá-la e incluí-la no dia a dia das famílias e dos profissionais é um caminho para reduzir desigualdades e garantir que mais crianças cresçam com saúde e dignidade.