Movimento é saúde: como a atividade física impacta o corpo, a mente e o controle glicêmico das crianças
Quando a criança se movimenta, os músculos usam mais glicose e o corpo responde melhor à insulina, o que ajuda a manter os níveis de glicemia mais estáveis.
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Letícia Chagas
10/15/20253 min read
Receber o diagnóstico de diabetes em uma criança muda a rotina de toda a família. Entre medições de glicemia, ajustes de insulina e o cuidado com a alimentação, surgem dúvidas, medos e a sensação de que tudo precisa ser controlado o tempo todo. Mas existe um aliado poderoso e natural nesse processo: o movimento.
Mais do que um complemento, a atividade física é parte essencial do tratamento e traz benefícios que vão muito além do controle da glicose.
O corpo precisa se mover
O corpo infantil foi feito para se movimentar.
Quando a rotina se torna muito sedentária, surgem sinais discretos, mas importantes: menos energia, maior instabilidade nas glicemias e até dificuldades de concentração.
Durante o exercício, os músculos utilizam glicose como combustível, o que ajuda a reduzir a glicemia. Após a atividade, o corpo também se torna mais sensível à insulina, permitindo um controle glicêmico mais equilibrado nas horas seguintes, às vezes, por até dois dias.
Estudos indicam que crianças com diabetes tipo 1 que mantêm uma rotina regular de exercícios apresentam melhor capacidade cardiovascular e melhora significativa nos níveis de hemoglobina glicada (HbA1c), marcador essencial do controle metabólico.¹²
Em outras palavras: o movimento ajuda o corpo da criança a funcionar de forma mais eficiente, fortalecendo músculos, ossos e metabolismo.
O impacto emocional do movimento
Os efeitos positivos da atividade física não se limitam ao corpo.
Brincar, correr e participar de atividades em grupo trazem ganhos emocionais profundos.
Crianças que se movimentam regularmente costumam apresentar melhor humor, mais autoconfiança e menos sintomas de ansiedade.³
Além disso, o exercício estimula substâncias cerebrais ligadas ao prazer e à motivação, o que melhora o engajamento no tratamento.
Quando a criança se sente capaz e ativa, ela participa mais das próprias decisões e encara o diabetes com mais leveza.
Movimento e controle glicêmico: um elo essencial
A atividade física é uma ferramenta terapêutica tão importante quanto alimentação e medicação.
Ela atua diretamente no controle da glicemia por diferentes mecanismos:
Aumenta o uso de glicose pelos músculos durante o esforço;
Melhora a captação de glicose pelas células, mesmo após o exercício;
Favorece o equilíbrio metabólico e o funcionamento do sistema cardiovascular.
Revisões científicas mostram que a prática regular de atividades físicas está associada a redução média de 0,5 a 0,8 ponto no HbA1c e melhora do perfil lipídico em crianças e adolescentes com diabetes tipo 1.⁴
No entanto, é comum que algumas famílias sintam medo de incentivar a prática especialmente por receio de hipoglicemia.
Por isso, é fundamental que pais e cuidadores recebam orientação médica individualizada, com ajustes de insulina, alimentação e monitoramento glicêmico.
Com segurança e acompanhamento, o movimento se torna um verdadeiro aliado no tratamento.
Por onde começar
Não é preciso transformar o exercício em obrigação.
O segredo está em trazer o movimento para o cotidiano de forma prazerosa e constante:
Caminhar até a escola ou ao parque;
Brincar de bola, pular corda ou dançar;
Pedalar em família;
Praticar esportes ou atividades adaptadas, conforme o interesse da criança.
A regularidade é mais importante do que a intensidade.
Pequenos momentos ativos, distribuídos ao longo da semana, fazem grande diferença na saúde física e emocional.
Movimento é cuidado
Quando a atividade física passa a fazer parte da rotina, os resultados vão muito além da glicemia: há melhor crescimento, mais disposição, equilíbrio emocional e segurança para viver a infância com liberdade.
Cada passo, corrida ou brincadeira é uma forma concreta de cuidado.
O movimento é amor em ação e uma das ferramentas mais poderosas para proteger o corpo e a mente.
Cuidar de uma criança com diabetes é um desafio diário, mas também uma jornada de descobertas e conquistas.
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Movimento é saúde. Movimento é cuidado. Movimento é vida.
Referências científicas
Riddell MC, et al. Exercise management in type 1 diabetes: a consensus statement. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2017.
García-García F, et al. Effects of structured exercise on HbA1c and cardiorespiratory fitness in children with type 1 diabetes. Frontiers in Endocrinology, 2019.
Strong WB, et al. Evidence-based physical activity for school-age youth. The Journal of Pediatrics, 2005.
Quirk H, et al. Physical activity in children and adolescents with type 1 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetologia, 2023.
American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes – 2024.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. 2020.
